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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ser e Universidade

João Telésforo Medeiros Filho(*)


Quando eu tinha nove anos de idade, ouvi um professor falar, num vídeo sobre um projeto de extensão: “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”*.

Eu sempre achei a frase bonita, pela sua falta de sentido. Um completo nonsense que me parecia belo.

Os anos passaram e eu não me esqueci da frase. Desconfiava que aquele sem-sentido fazia sentido.

Até que um dia, no começo do ano passado, escrevendo um artigo sobre um outro projeto de extensão, aquela frase me voltou à cabeça como um bumerangue e eu de repente a compreendi - a tal espiral hermenêutica funcionou, ao longo de um tempo de dez anos nesse caso… Pensando nessa frase, escrevi o seguinte:

“(…) a universidade deve ser o lugar da utopia. Eis uma frase que soa paradoxal: como um lugar poderia ser o lugar do não-lugar? A contradição, no entanto, é apenas aparente, porque ‘a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar’. A idéia de universidade funda-se no compromisso com a diversidade de pontos de vista, de pensamentos, de saberes, de modos de ser e de agir. Nela, não pode haver espaço para a intolerância e para o pensamento único; devem proliferar perspectivas diferentes e opostas, que permitam o conhecimento do mundo em sua inesgotável complexidade. Por isso, a universidade é o lugar de todos os lugares, inclusive daqueles que não existem. (…) a universidade tem a função de imaginar, de pensar o que não existe, o não-lugar, o outro, o novo. Os grandes fins da universidade são reproduzir e criar conhecimentos; não há criação sem imaginação, por isso a universidade é local privilegiado para a formulação de utopias e para a reflexão sobre elas.”
Isso é o que sempre me atraiu pra a universidade, e continua a me atrair. A mim e a tanta gente que se sente angustiada, alienada, amputada, anulada, quando sente que está apenas repetindo e reproduzindo idéias, estruturas, modos de vida. Reproduzir não necessariamente é ruim; ninguém cria nada do vácuo. O problema é quando o sujeito se deixa dominar por essa repetição, e perde completamente o que pode haver de autêntico, singular e criativo no que faz - inclusive, ou fundamentalmente, de si próprio (fazer qualquer coisa, afinal, é fazer qualquer coisa de si próprio).

Aí está a beleza da universidade, o que há de estimulante nela: um ambiente fundamentalmente voltado à compreensão, à imaginação, à criação. Não só intelectual, mas social, afetiva, cultural, política…

Alguém pode dizer: mas essa universidade não existe! E aí essa pessoa sacaria mil argumentos apontando como o ambiente universitário, o da UnB por exemplo, não tem, em geral, nada a ver com isso que falei. Tratar-se-ia, pelo contrário, de um ambiente de repetição e reprodução como qualquer outro, de uma instituição feita de mediocridade e pequenez.

Respondo que é verdade que existe muita mediocridade e pequenez na universidade. Mas, isso é apenas a circunstância, talvez até hegemônica, contra a qual nos chocamos, na construção do nosso projeto de universidade. E a universidade, pra mim, é o projeto que vivemos dela.

Eu não sou um maluco solipsista que acha que as coisas são o que eu finjo que elas sejam. A graça da UnB, pra mim, e o motivo da minha obsessão (pra não usar um termo piegas…) por ela, é que descobri, logo quando cheguei aqui, que esse projeto de universidade não era só meu. A cada semestre que passo na UnB, eu conheço mais pessoas e vejo mais grupos se construindo com essa visão, engajados nesse projeto. Esse projeto coletivo deixa de ser um delírio, e passa a ser, ou constituir-se como, a universidade que nós efetivamente vivemos. É a universidade que estamos inventando, criando, construindo; e aí está a graça toda, aí está a universidade que estamos experimentando. É por essa Universidade de Brasília que vou me graduar.

“Estejamos unidos, estejamos reunidos, e sempre, sempre em movimento”.

João Telésforo Medeiros Filho.
(*) Membro pleno da UEI
Diretor do Centro Acadêmico de Direito
Estudante do 8° Semestre de Direito

sábado, 4 de outubro de 2008

Do tripé, o menor(*)


Em todas as discussões sobre o tripé ensino – pesquisa - extensão que acontecem no meio acadêmico, em especial na UNB, que é no qual eu me situo, o pé em que se apóia a universidade chamado extensão é deveras esquecido. Sempre é citado, como várias coisas na vida por uma índole utilitarista o são, puramente por configurar um apoio necessário. Mas ele na maioria das vezes não é aprofundado. E em minha humilde análise, de forma equivocada.

A extensão representa, e ai entra muito de minha ideologia pessoal, uma das grandes finalidades da universidade: produzir de modo a contemplar as demandas da sociedade (e que no Brasil não são poucas). Ela é o canal pelo qual estudantes e professores irão não só testar seus conhecimentos e tornar a teoria uma prática, mas também irão contribuir de modo significativo para a construção de um sentido social para as ações acadêmicas. É assim, ao meu ver, que se constrói uma universidade democrática, virtuosa e de qualidade.

Não que eu queira com esse texto estar desmerecendo os outros braços da universidade. Acho que os dois são de extrema importância, mas em níveis iguais. Tanto o ensino (pois é a iniciação de um pesquisador ou de atuante de extensão) quanto a pesquisa (afinal, nós precisamos reciclar as linhas de raciocínio que orientam os rumos das ações dentro e fora da universidade) devem receber atenção. Também não quero desmerecer àqueles acadêmicos ou envolvidos que têm finalidades nesses três campos diferentes dos meus, afinal, vivemos em um regime democrático que nos permite fazer esse tipo de debate sadiamente.

Mas respondendo à essas polêmicas que eu levanto, eu só posso defender que a extensão não recebe a importância e atenção que originalmente lhe foi atribuída, tanto como espaço de construção pessoal, no que toca o aprendizado, quanto no espaço social, em que a ação da extensão se configura como construtor de pontes entre sociedade e universidade, muitas vezes separadas por um enorme abismo.

(*)Jeronimo Calorio Pinto
Estudante de Comunicação Social - UNB
Membro da Diretoria Administrativa do CACOM
Membro da União dos Estudantes Independentes